Rex peccatoribus accedens

 

H O M I L I A
SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO

"O Rei que se aproxima dos pecadores."

Caríssimos irmãos e irmãs,

Hoje nós chegamos ao último domingo do Ano Litúrgico.
A Igreja, com a sabedoria de Mãe, coloca diante de nós a imagem de Cristo Rei.
E, convenhamos... se alguém entrar na igreja hoje sem entender nada do que celebramos, talvez imagine um Cristo poderoso, coroado, rodeado de anjos armados, sentado num trono inacessível.

Mas quando abrimos as leituras... o que encontramos?
Um rei que começa como pastor.
Um Rei que sustenta o universo, mas que se abaixa.
E, no Evangelho, um Rei pregado numa cruz.

E então a gente percebe: o Reino de Jesus não é como os reinos deste mundo.
A lógica de Deus é outra. Mais profunda.
Mais lenta.
Mais verdadeira.

A primeira leitura nos mostra um momento bonito e simples:
As tribos de Israel chegam diante de Davi e dizem:
"Somos teus ossos e tua carne."

Isso não é só poesia.
Isso é reconhecimento.
É como se confessassem:
— Davi, nós confiamos em ti porque tu sempre estiveste conosco. Você conheces nossas histórias. Tu caminhaste conosco quando ninguém queria caminhar.

E então, diante do Senhor, fazem uma aliança.

Percebam, irmãos: não é um rei distante que sobe ao trono. É alguém que conviveu, lutou, sofreu, carregou junto.

O Reino de Deus sempre começa assim: na proximidade. Não na força.

E isso já aponta para Jesus.
Ele é Rei porque é o Pastor que conhece cada ovelha pelo nome; Rei porque se aproxima; Rei porque se deixa tocar.

Na carta aos Colossenses, São Paulo abre diante de nós um horizonte imenso.
Quase dá vontade de fazer silêncio só para ouvir de novo:
"Tudo foi criado por meio dele e para ele... e nele tudo subsiste."

No fundo, Paulo está dizendo algo muito simples, mas muito profundo:
Quando Cristo é o centro, a vida tem eixo.
Quando Ele não é... tudo se espalha, tudo se fragmenta.

Quantas vezes na vida a gente se sente assim, espalhado?
Uma parte da nossa vida corre para cá, outra para lá...
Um problema puxa o outro...
Uma expectativa cresce, outra nos decepciona...
E chega uma hora em que a gente diz:
— Eu não estou segurando mais nada.

Pois é. Talvez seja porque estamos tentando segurar sozinhos.
Paulo nos lembra:
Cristo é o eixo. Ele segura tudo. Ele sustenta tudo. Ele dá sentido a tudo.

E quando deixamos Ele reinar — não apenas na boca, mas nas escolhas, no tempo, nas relações, nas dores — começamos a perceber um movimento novo dentro de nós:
uma paz que não vem de nós,
um equilíbrio que não vem das circunstâncias,
uma força que não vem da nossa vontade.

É Ele reinando.

E então chegamos ao Evangelho... que é duro, é chocante, mas é maravilhoso.

A cena é o Calvário.
Ali está Jesus, pregado, ferido, sangrando... e sendo zombado.

Olhem que ironia:
justo no momento em que Ele está inaugurando o Reino, todo mundo ao redor está dizendo que Ele fracassou.

Os chefes zombam, os soldados riem, um dos ladrões insulta.
Parece que o mal venceu.

Mas Jesus permanece.
Ele não desce.
Não porque não pode, mas porque o amor o mantém ali.

E é nesse ambiente tão hostil que surge aquele pedido que atravessa os séculos:
“Jesus, lembra-te de mim.”

Esse homem, meus irmãos… não tem currículo, não tem obras, não tem méritos.
A única coisa que ele tem é um coração que, mesmo ferido, ainda é capaz de reconhecer o Rei.

E Jesus, que nunca desperdiça um pedido sincero, responde com uma promessa:
“Hoje estarás comigo.”

Que reinado é esse?
Que Rei age assim?
Que Rei entrega o paraíso para um condenado?

É o Rei que não se cansa de salvar.
É o Rei que vê além das aparências.
É o Rei que enxerga o último sopro de fé na alma de um pecador e o transforma em eternidade.

E então nós chegamos ao ponto mais importante:
O que significa, concretamente, deixar Cristo reinar em nós?

Talvez a resposta mais honesta seja esta:
deixar Cristo reinar é permitir que Ele entre nas áreas da nossa vida onde nós não deixamos ninguém entrar.

Porque nós temos partes iluminadas… e temos partes que a gente esconde até de nós mesmos.

E nessas partes escondidas, muitas vezes, não é Cristo que reina.
É o medo.
É a mágoa.
É o orgulho.
É o pecado repetido.
É a vontade de controlar tudo.
É a ferida que ainda sangra.
É a voz que diz: “Você não consegue mudar.”

Deixar Cristo reinar é olhar para Ele e dizer:
“Senhor… eu não sei lidar com isso sozinho. Entra. Assume. Reina.”

E isso, meus irmãos, não acontece num instante.
É processo.
É caminho.
É paciência de Deus conosco e nossa com nós mesmos.

Mas quando Ele reina… algo muda.
A mesma cruz que antes nos esmagava se torna leve.
A mesma situação que antes nos roubava a paz se torna ocasião de fé.
A mesma falha que antes nos prendia se torna motivo de humildade.

Porque quando Cristo reina, Ele liberta.

Observe o Evangelho:
O Reino não começou no Tabor, nem no milagre da multiplicação, nem na entrada triunfal em Jerusalém.

O Reino começou numa cruz, num lugar de condenados, com um ladrão arrependido.

Isso é a assinatura de Deus:
Ele sempre começa onde nós pensamos que terminou.
Ele sempre volta onde nós desistimos.
Ele sempre abre portas onde só vemos muros.

E por isso celebramos Cristo Rei:
não porque Ele governa tudo com mão de ferro, mas porque Ele abre caminhos onde não havia caminho.

Então, meus irmãos, hoje não precisamos de uma oração complicada.
Não precisamos de palavras bonitas.
Não precisamos saber tudo sobre teologia ou sobre o Reino.

Precisamos apenas repetir, com verdade, com humildade, com coragem, a oração do bom ladrão:

"Jesus... lembra-te de mim."

Lembra-te de mim quando a fé fraqueja.
Lembra-te de mim quando eu não sei mais o que fazer.
Lembra-te de mim quando meus pecados me acorrentam.
Lembra-te de mim quando eu duvido do meu próprio valor.
Lembra-te da minha família, das minhas dores, dos meus silêncios, do que eu não sei contar a ninguém.

Lembra-te de mim...
e reina, Senhor.
Reina no que eu sou, reina no que eu temo, reina no que eu escondo, reina no que eu desejo.
Reina no meu coração, porque sem Ti eu não encontro o caminho.

E que Ele, o Rei manso é humilde, nos conduza para um novo Ano Litúrgico cheio de esperança.

Amém.

  
M. Davi Melo OCM

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