Homilia - 3ª feira da 3ª Semana do Tempo Comum

 

Homilia


Caríssimos irmãos e irmãs,
sejam todos muito bem-vindos.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
— Para sempre seja louvado, e sua Mãe, Maria Santíssima.

Hoje entramos neste santo lugar sob a força de uma antífona que não é apenas um canto, mas um chamado da alma:
“Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira. Glória e esplendor estão em sua presença, santidade e beleza em seu santuário.”

E o Salmo nos responde como um grito de quem foi erguido do chão:
“A mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas viverei para cantar as grandes obras do Senhor.”

Caríssimos, o Vernáculo de hoje nos apresenta o centro de tudo aquilo que celebramos: Jesus Cristo.
Mas hoje, para mim, essa Palavra também toca um ponto muito íntimo e muito profundo, porque hoje também celebro o dom da minha vida, o meu aniversário.

E se hoje eu estou aqui, mais um ano de vida, mais um ano de caminhada, não é por mim.
É por Ele.
Sem Jesus, eu não resistiria.
Sem Ele, eu não seria quem sou.
Sem Ele, eu não teria permanecido de pé.
Se hoje celebro minha natividade, é porque antes alguém me sustentou na cruz.

No último domingo, meu pároco partilhou uma história que ficou gravada no meu coração — e hoje eu a partilho com vocês.

A história de uma mãe.
Uma mãe que, há sete anos, enterrou seu primeiro filho, vítima de um acidente de carro.
E recentemente, precisou enterrar também o seu segundo e último filho.
Ela tinha dois… e perdeu os dois.

E o sacerdote se perguntava, com o coração apertado:
“Meu Deus, o que eu direi a essa mãe?”
Porque ela não precisava de frases prontas.
Ela não precisava de explicações frias.
Ela precisava de sentido para continuar viva.

E no meio dessa dor, Deus colocou no coração dele uma resposta simples e profunda: celebrar a Missa.
Colocar aquela dor no altar.
Colocar aquele luto nas mãos de Deus.

E muitos poderiam perguntar:
“Mas por que trazer uma história tão triste numa Missa de aniversário?”

Porque foi naquela Missa que aquela mãe, ao receber Jesus na Eucaristia, encontrou forças para dizer algo que desmonta qualquer argumento humano:
“Se eu não tivesse a Igreja, se eu não tivesse a Comunhão, eu não estaria aqui.”

Mesmo ferida.
Mesmo despedaçada.
Mesmo chorando.
Ela conseguiu cantar:
“Cantai ao Senhor um cântico novo.”

E é isso, meus irmãos.
Cantar um cântico novo não é negar a dor.
É cantar apesar dela.
É, antes de culpar Deus, dizer:
“Senhor, eu creio, mas aumenta a minha fé.”

Porque só a fé nos sustenta.
Se não fosse Deus, onde estaríamos?

E é essa fé que vemos na primeira leitura, na figura de Davi.
Não o Davi estrategista.
Não o Davi rei no trono.
Mas Davi dançando.

Davi dança diante da Arca.
Sem medo do julgamento.
Sem se importar com o que diriam.
Sem trajes reais.
Vestido de simplicidade.
Vestido de verdade.

Muitos acharam que ele estava louco.
E ele estava.
Louco de amor por Deus.

E se fôssemos realmente loucos por Deus, faríamos o mesmo.
Mas, às vezes, transformamos a Igreja num espaço tão engessado, tão duro, tão cheio de aparências, que esquecemos o que é amar de verdade.

A gente julga a casula do outro.
Julga se é simples demais ou bonita demais.
Julga o jeito, o tom, a expressão.
Mas esquece que ali há alguém oferecendo o melhor que tem para evangelizar.

Aqui, muitas vezes, alguém vira “anjo” no altar…
e fora dele vira alvo, vira fofoca, vira veneno.

Não adianta cantar bonito se a vida desafina.

São Francisco já dizia:
“Pregai o Evangelho em todo tempo; se necessário, use palavras.”

E eu pergunto, do fundo do coração:
Estamos mesmo pregando o Evangelho?

Vivemos um tempo de graça com o Sínodo: “Para que todos sejam um.”
Mas estamos vivendo isso de verdade?
Ou só no discurso?

Porque dentro é “unidade”.
Fora é divisão.
Dentro é “caridade”.
Fora é preconceito.

Não adianta levantar bandeira de Igreja com o coração fechado.
Não adianta falar de comunhão enquanto se espalha divisão.

Não adianta cantar bonito se a vida desafina.

E então o Salmo nos provoca:
“Ó portas, levantai vossos frontões!”

Não é a porta da Igreja que precisa se abrir.
Ela já está aberta.
É a porta do coração.

Deus não arromba.
Ele não invade.
Ele espera.

E é triste ver pessoas que só celebram esperando cargo.
Que só participam para “bater meta”.
Que esquecem que Cristo está aqui.

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estarei.”
Ele está no meio de nós.
Mas muitas vezes damos as costas a Ele.

No Evangelho, Jesus é direto:
“Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”

Família, para Deus, não é título.
É atitude.

Tem muita gente dentro da Igreja, mas longe da vontade de Deus.
Muito cargo.
Muita função.
E pouco amor.

Porque a vontade de Deus não combina com fofoca.
Não combina com veneno.
Não combina com perseguição disfarçada de zelo.

Jesus não pergunta quem tem mais tempo.
Quem aparece mais.
Quem manda mais.

Ele pergunta:
Quem faz a vontade de Deus?

E fazer a vontade de Deus dói.
Porque exige conversão.
Porque obriga a olhar para dentro e dizer:
sou eu que preciso mudar.

Davi dançou porque era inteiro.
Sem máscara.
Sem personagem.

Nós, muitas vezes, queremos a Arca…
mas sem conversão.
Queremos Deus…
mas do nosso jeito.

E Deus não funciona assim.

Que hoje, nesta Eucaristia,
a mão direita do Senhor nos levante.
Que Ele nos ensine a cantar um cântico novo —
com lágrimas, se for preciso,
mas com um coração verdadeiro.

Amém.

Post a Comment

Postagem Anterior Próxima Postagem